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O Coaching Do Shrek

Shrek

Resumo

“Era uma vez uma linda princesa. Mas ela recebeu um feitiço do pior tipo. Que só poderia ser quebrado com um beijo de amor. Ela esperou no quarto mais alto da mais comprida torre por seu verdadeiro amor e seu beijo.” Shrek rasga a página e ri. “Como se isso fosse acontecer.”

Shrek é um ogro rabugento e incorpora a imagem tradicional do que um ogro deve fazer para afastar qualquer um que tente se aproximar dele. Quem o vê sai correndo de imediato. Um burro falante, que aparentemente não sabe que deve temer um ogro, o idolatra por livra-lo de caçadores de personagens. E assim começa uma parceria.

Para retomar seu pântano Shrek e o burro vão até Duloc, a cidade reinada por Lorde Farquard. O lorde, que quer virar rei, manda Shrek em uma jornada para salvar a princesa Fiona.

Chegando no castelo o burro se apavora ao ter que atravessar uma ponte acima da lava. Shrek o encoraja falando que estará ao seu lado para suporte emocional.

Shrek salva Fiona e começa a sua jornada para leva-la ao castelo de Farquad. No caminho Shrek e Fiona percebem que tem sentimentos um pelo outro, mas fazem de tudo para negar isso. A princesa demonstra comportamentos que fogem do padrão para um membro da realeza, como comer ratos, arrotar, e lutar com homens.

Como o caminho até Duloc é longo, Fiona se desespera toda vez que chega perto o por do sol. Sempre encontra um lugar protegido para dormir. O burro, descobre que a princesa vira ogra durante a noite, compreendendo suas semelhanças com Shrek.

Entre maus entendidos, a princesa vai se casar com o Lorde, mas Shrek impede declarando seu amor a ela, que ele descobre que é recíproco. O ogro e Fiona se beijam e ela fica em sua forma de ogra. “E eles viveram feios para sempre.”

 

 Shrek na Sessão de Coaching

Shrek é uma paródia de contos e de clássicos da Disney. Para quebrar comportamentos negativos de pessoas que tentam suprir alguma necessidade da forma errada, acredita-se em quebrar o padrão demonstrado pela pessoa. Por exemplo, se alguém demonstra tristeza para receber atenção, uma forma de quebrar esse comportamento seria o uso de humor com um resultado diferente do esperado pela pessoa. E nisso o filme de Shrek se sai muito bem. O próprio inicio já começa com uma quebra na expectativa da audiência. Quando Shrek fecha o livro de contos de fadas, falando que aquilo não existe e aparece, o público se choca ao ver que o personagem principal é um ogro.

Muitos valores transmitidos por contos clássicos estão enraizados e causam uma dualidade em nossa sociedade. A adoração a beleza física, o apego a títulos (no caso do Lorde que queria ser um rei), a submissão das mulheres aos homens são satirizados no filme. Muitas pessoas ainda creem que devem seguir esses valores e acabam casando por motivos errados, trabalhando com coisas que não gostam, e seguindo convenções para formar um bom olhar de terceiros. Pensar dessa maneira limita o alcance do potencial real da manifestação da essência da pessoa de forma objetiva. O uso de sátiras e humor ajuda a quebrar esses pensamentos limitantes, reestruturando eles de forma mais construtiva e revitalizadora.

Todos os personagens enfrentam dificuldades por destoarem em algum ponto do que é esperado de seus modelos. O filme abre os olhos do espectador, para que este perceba que é mais fácil assumir características que destoam do ideal, do que lutar contra si mesmo para se enquadrar.

Dentre as maiores questões que os personagens enfrentam estão: a busca de uma identidade, a repressão de características da personalidade, o isolamento como forma de proteção.

Tendemos a acreditar que nossa personalidade tem apenas uma face. O que acontece na verdade é que de acordo com as situações mudamos nossa forma de reagir. Somos pessoas diferentes com nossos amigos, família, chefes. Shrek acolhe a imagem que as pessoas esperam dele para garantir que elas se afastarão. Quando Shrek está sozinho, no entanto, manifesta uma personalidade bem diferente da que usa para espantar os outros. Assim, ele não corre o risco de sofrer com preconceitos. Shrek cria uma ilusão de que está satisfeito sozinho.

A relação de Shrek com o burro é uma relação que ele rejeita inicialmente, e só aceita porque lhe servirá para alcançar outro objetivo. O burro parece não conhecer o estereotipo do ogro e os riscos que isso poderia representar, então nunca se intimida diante do comportamento de Shrek. Este tenta de todas as formas afasta-lo, é cruel e não reconhece nada do que ele faz, como o próprio burro diz a Shrek no final do filme. Mas essa relação forçada é uma porta de entrada para a futura relação com Fiona. É com o burro que Shrek aprende a se envolver e se comunicar.

O burro enxerga além do fato de Shrek ser um ogro. Para verificar se suas teorias estão certas ele faz experiências. Ele testa se Shrek o aceitará como parceiro para ir a Duloc resgatar seu pântano, Shrek passa. O burro consegue desenvolver conversas com Shrek, na cena que veem as estrelas, por exemplo. Ele enfrenta Shrek finalmente com o que  assume que é a verdade sobre o comportamento do ogro perante os outros que é “que ele está tão envolvido em camadas que tem medo do próprio sentimento”. O burro consegue fazer Shrek criar consciência disso e tentar mudar seu comportamento indo atrás da princesa.

O primeiro ponto de virada no comportamento de Shrek, em que percebemos uma mudança do ogro que quer ser solitário para alguém que sabe se relacionar é quando ele oferece apoio emocional para o burro atravessar a ponte. A relação passa a exigir trocas, já que agora Shrek tem um objetivo em comum com o burro, recuperar seu pântano. A relação nesse ponto, no entanto, ainda é superficial, já que o objetivo não faz parte dos ideais do burro.

O objetivo do burro ao ir nessa jornada com Shrek é criar uma amizade. Para Shrek, em compensação, seu objetivo é recuperar o pântano, viver sozinho e ser deixado em paz. Como não há uma parceria em relação aos objetivos nesse ponto, a relação de ambos ainda é frágil.

Precisamos compreender que a vontade de transformar seu comportamento, parte de Shrek. O burro o auxilia porque ele permite. Existem casos em que os “Shreks” que conhecemos estão tão profundamente inconscientes que não ouviriam ninguém a respeito de suas camadas. E casos em que estão tão centrados em si mesmos que não conseguem ver o outro como Shrek viu o burro e Fiona.

Fiona demonstra uma dualidade em seu comportamento.  Sua oscilação física, princesa de dia, ogra a noite demonstra uma oscilação de busca da sua identidade.

A princesa se esconde sempre que vira ogra pelo medo da rejeição dos outros a imagem dela. Mas quando está em sua forma de princesa ela tem em sua essência características de ogra, como arrotar, comer ratos, fazer um algodão doce com moscas e teias de aranha, lutar destemidamente com os parceiros de Robin Hood, e gritar com Shrek e lhe dar ordens. E essas características deixam-na satisfeita, o que é claramente demonstrado quando ela sente uma tristeza em pensar que tipo de comida vai ter que comer no castelo.  Mas a princesa luta contra suas características essenciais para seguir o modelo de princesa perfeita. Ela fala palavras em forma de poema para agradecer a Shrek, acha que ele devia ter ido busca-la com um cavalo.

O filme ridiculariza a bondade excessiva de princesas de clássicos como A Branca de Neve e a Bela Adormecida. Na cena em que a princesa canta com um tom tão agudo que mata o pássaro, ela pega seus ovos e os frita para o café da manhã.

Fiona acredita que a forma de Shrek salva-la da torre deveria ter seguido um roteiro totalmente diferente do que aconteceu. Mas o roteiro dela era imposto pelo meio externo e não por seus desejos reais. Fazemos isso com frequência. Ao colocar expectativas em outras pessoas ou em resultados de nossas ações baseados no que ouvimos os outros falar e não em nossas experiências de se aquilo nos faz sentir bem ou não. A quebra da expectativa de Fiona faz com que a princesa não enxergue suas semelhanças com Shrek e ambicione ficar com o ganancioso Lorde Farquard, que na verdade só queria casar com ela pelo título de Rei. Corremos o risco de fazer isso em relacionamentos e projetos também. A quebra de expectativas faz com que os abandonemos antes mesmo de saber se seus resultados nos trariam sentimentos bons ou ruins, apenas para corresponder ao que esperam de nós.

Fiona e Shrek enfrentam dificuldades com sua identidade. Ele oscila entre ser o ogro que a sociedade define e o príncipe que salva Fiona. E ela oscila no mesmo ponto, em ser a princesa de acordo com  que os outros esperam e assumir suas características de ogra.

Shrek e fiona tentam bloquear o envolvimento com outros por medo da rejeição. Ambos os personagens pegam conversas pela metade e acham mais fácil concluir que seus pares estavam falando que o outro é “horrível e que ninguém poderia ama-lo.” É muito humano concluir que os outros estão pensando coisas diferentes do que na verdade estão. Por isso é importante uma comunicação clara, que não deixe margem para mal entendidos.

Shrek e Fiona se tornaram como tantos de nós que veem a si mesmos pelo olhar do outro. E muito do que fazem, é pela perspectiva dos outros. Mas o problema disso é que exige muito esforço, e as coisas podem ser mais leves.  Ambos criaram uma resistência ao desejo que tinham. Quando acabaram com a resistência ambos ganharam.

 

Existe uma tendência das pessoas de tentar encaixar tudo com o que se deparam em categorias. É fácil tentar criar uma identidade para as pessoas baseado em nossas pre-concepções de estereotipos. Isso acarreta em preconceitos e generalizações. Quem mais sofre com isso são classes marginalizadas, como estrangeiros, mulheres, negros. Shrek e Fiona representam essas classes no filme. Mas pessoas que não se enquadram nessas classes podem tentar disfarçar características que poderiam comprometer sua imagem. Um exemplo são homens que tentam disfarçar seus sentimentos, o que é tão destrutivo quanto Fiona esconder seu lado ogra.

Alguns dos pensamentos que criamos podem se tornar reais se nos comportarmos de forma que  os validem. Por exemplo, acreditar que um aluno é super inteligente faz com que professores lhes deem mais atenção, fazendo com que o esforço do aluno seja maior e acarretando em um maior desempenho desse aluno. Shrek se comporta no começo do filme de forma que valida que todos acham ele horroroso e o temem. Isso cria um ciclo que o prende na forma preconcebida de ogro e não permite que ele se expanda para suas características que são diferentes do que esperam dele.

 

Por ser um filme pós-moderno algumas das motivações dos personagens são desvendadas pelas falas entre eles. No caso de Lorde Farquard, por exemplo, Shrek comenta que ele deve estar compensando por alguma coisa com o tamanho do seu castelo. Em um trocadilho Shrek também indica o sentimento de inferioridade de Farquard por sua altura que é chocante para a sociedade pela diferença do que é considerado belo. O lorde tenta compensar isso com obras enormes e posicionando-se no mais alto nível da hierarquia.

O trocadilho do final do filme ilustra que quando escolhemos um caminho no qual podemos assumir nossa identidade sem dar grande importância a valores superficiais impostos pela sociedade saímos ganhando. Trocar o tradicional  “e eles viveram felizes para sempre” pelo “e eles viveram feios para sempre” acaba com a ilusão de que podemos ter uma vida eternamente feliz. E serve como trocadilho para demonstrar que o feio também pode ser feliz, quebrando paradigmas de que tudo que é belo é superior.

Os valores transmitidos por contos clássicos são rígidos, difíceis de alcançar e fazem promessas impossíveis como viver feliz para sempre. Shrek da mais leveza a assumir nossas próprias diferenças, incorporar características que as vezes parecem feias ao outro mas que nos satisfazem e sem grandes promessas, já que no final da história ninguém quer viver feio para sempre. No mundo objetivo, quem incorpora o feio acaba achando ele bonito.

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