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A Pequena Sereia

RESUMO

A história começa com alguns navegantes que acreditavam em encantos de sereia. Para eles o humor do rei Tritão tinha influência sobre os mares.

O rei Tritão conduzia festas em que suas filhas cantavam . Ele ficava especialmente entusiasmado com sua filha Ariel, que não aparece para os ensaios mas tem uma linda voz.

Ariel tem um peixinho chamado Linguado, que é seu companheiro. O peixe tem medo de se arriscar em aventuras da sereia, mas ela sempre o convence . Ariel coleciona objetos da humanidade que encontra em navios naufragados. Ela tem uma gaivota que a ajuda a identificar, erroneamente, a utilidade dos materiais que encontra.

Úrsula, a bruxa dos mares, observa Ariel e a vê como um possível instrumento para a destruição do rei Tritão.

O rei segue o conselho de Sebastião (seu siri escudeiro) de manter a sereia sob controle. Ele fala para o siri vigia-la. Este descobre uma caverna repleta de itens do mundo humano . A sereia diz ser uma menina que parece ter tudo, mas anseia por mais. Ela quer estar onde estão as pessoas. Ela quer fazer parte do mundo dos humanos.

Em uma festa no barco, Ariel nada até  a superfície e vê pela primeira vez o príncipe Eric, que a deixa encantada. Eric ganha uma escultura de si mesmo em sua homenagem. E o homem que a mandou fazer fala que esperava entrega-la em seu casamento. Mas o príncipe não encontrou a mulher certa ainda. Seu barco naufraga e a pequena sereia o salva. Ela canta para ele que fica encantado com sua linda voz.

A bruxa percebe sua oportunidade, fácil demais, de derrotar o rei. A paixão da sereia por um príncipe humano vai facilitar as coisas para que a bruxa ponha seu feitiço sobre ela.

Ariel fica sonhando com a vida na terra e pensando em como encontrar o príncipe. Sebastião a alerta que a grama do vizinho é sempre mais verde e que a vida é ótima em baixo do mar. Ariel consegue a estátua de Eric e seu pai descobre sua caverna. Em um ataque de fúria destrói tudo com seu tritão.

Duas enguias visitam Ariel e propõe ter todos os seus sonhos realizados se ela visitar a bruxa dos mares. Ela se recusa inicialmente, mas acaba cedendo.

Ursula, diz à pequena sereia que a única maneira de conseguir o que ela quer é se tornar humana. Seu papel é ajudar pobres almas sem ter a quem recorrer. O trato é ela se tornar humana e o príncipe deve beija-la em três dias. Mas se não fizer isso Ariel volta a ser sereia e passa a pertencer a bruxa para sempre. Como pagamento a sereia deve dar sua voz para Ursula. Ela diz que os humanos não gostam de mulheres que falam muito, preferem as quietas.

Ariel assina o trato com Ursula, que pega sua voz e lhe da pernas no lugar de sua barbatana. Eric encontra a pequena sereia e tenta lembrar dela, mas quando vê que ela não tem voz, conclui que ela não poderia ser quem ele pensou. Leva-a para seu castelo. No jantar a convidada usa o garfo para pentear seu cabelo.

Os humanos comem peixes e siris. Ariel salva Sebastiao de ser devorado por eles. Está admirada com o mundo terrestre. Seu pai a procura por todo lugar. Ela age como criança com suas novas descobertas. O príncipe leva-a num passeio de barco e quase a beija, mas seu barco é virado antes que isso aconteça. Eric demonstra atração pela sereia, mas ainda anseia pela voz com a qual ele se encantou.

A bruxa se transforma em uma linda mulher e seduz o príncipe com a voz de Ariel. Eric marca seu casamento imediatamente. Os bichos do mar atacam a bruxa. Seu colar com a voz de Ariel quebra, trazendo sua voz e o príncipe de volta para a sereia. Mas é tarde demais para ele beija-la.

Ursula a faz de refém e oferece um trato ao rei tritão para liberta-la. Ele topa e ela pega todo seu poder. Eric busca ajudar Ariel porque não quer mais deixa-la. Ele consegue derrotar Ursula. E todos os seus prisioneiros ficam livres. Tritão vê que Ariel realmente ama Eric e transforma ela em ser humano.  Eles se casam.

 

ANÁLISE DO COACHING

A história de Ariel, no mundo real, pode trazer ideias que comprometem a essência das mulheres ao tentar manter sua identidade. Ariel salva o príncipe Eric e se apaixona por ele de imediato. Ele, apesar de ter uma vaga lembrança de sua voz ainda não conhece a sereia. Mesmo assim ela faz um pacto com Úrsula, que é definida por Sebastião como um demônio, para conseguir ficar com Eric.

 

A versão da vida real dessa história , seria pessoas entrando de cabeça em um romance, comprometendo suas necessidades e padrões mais profundos. Apenas porque querem a pessoa em sua frente.  A esperança de ver o homem mudar para se tornar o que a mulher quer é a aposta mais perigosa que alguém pode fazer em um relacionamento. Não que seja errado, mas é muito arriscado, porque a pessoa da tanto tempo a alguém que nunca mudou. Alguém que sempre demonstrou sinais de como seria a relação.  Se prestarmos atenção aos sinais de alerta ao longo do caminho, veremos que eles indicam em que direção nosso esforço está nos levando.

As pessoas mudam sim, mas só quando elas estão motivadas internamente. Deve haver uma decisão própria de mudança, e não uma força externa.

É diferente quando alguém que amamos reconhece que precisamos que mudem e decide que é fundamental a eles que o façam. Até ser importante para eles e não apenas para você, essa mudança não ocorrerá. E se ocorrer, não vai durar.

Perceber isso esclarece que esse tipo de aposta não é o único jogo que podemos fazer. Que há inúmeras opções que nos deixariam mais felizes e não nos fariam colocar tanta energia em algo que não nos trará o resultado pelo qual tanto ansiamos.

 

A mídia reforça a imagem de que passar por um drama, sofrer, superar obstáculos para enfim mudar uma pessoa é um caminho a ser seguido para se encontrar  a felicidade em um relacionamento. Filmes como 50 tons de cinza,  séries como Gossip Girl, tem o personagem central constantemente lutando para que a pessoa de seu desejo enfim se torne seu ideal.

Não podemos condenar completamente a mídia por transmitir esse tipo de ideal. A partir do momento em que mulheres acatam esse tipo de mensagem como sendo verdades absolutas, tornam sua prisão a um modelo ideal destrutivo um ciclo vicioso. Os filmes que mostram o drama de uma mulher que sofreu para conseguir o que queria são os que vendem. Mulheres vão ao cinema assistir ao Christian Grey e saem de lá hipnotizadas. Querendo um homem daqueles para elas. Acreditando cegamente que passar por um drama é bom para um relacionamento.

 

Deveria se escutar mais quando falam que um casamento acaba porque as mulheres acreditam que vão mudar os homens, e os homens acham que as mulheres nunca vão mudar.  O que acontece é o inverso, porque está implantado na cabeça da maioria das mulheres que os homens precisam mudar. Assim conseguiriam aquele ideal de romance que sempre viram se tornar verdade desde que eram pequenas e assistiam “A Pequena Sereia”

 

Ariel tem uma paixão pelo mundo dos humanos. Imagina que todos achariam que tem tudo o que precisa, mas quer conviver com pessoas. Ela diz que daria tudo para viver a vida que acredita que eles levam.  As pessoas tem tendência de superestimar conquistas e formas de viver que estão fora de seu alcance. É fácil considerar “a grama do vizinho mais verde” sem ter passado pelo que passaram para chegar onde estão.

 

Existe um padrão atualmente de como devemos viver nossas vidas para que sejamos “felizes”, ser bem sucedido profissionalmente, casar, ter filhos, ter um bom relacionamento com sua família. Assim como a pequena sereia idealiza um mundo que na verdade  desconhece, nós idealizamos conquistas as quais ainda não alcançamos.  Todas podem ser boas e nos trazer felicidade. Mas apenas se buscadas da maneira correta. O que acontece é que as pessoas ficam tão obcecadas em conseguir alcançar tais metas, que para isso passam por cima de sua individualidade, de outras pessoas, se submetendo a chefes centralizadores, namorados e namoradas que tratam o conjugue como um objeto e para manter o relacionamento o individuo abre mão de partes essenciais de si, consequentemente sofrendo uma automutilação.

 

Em troca de ter a vida ideal a sereia oferece seu maior dom para a  bruxa dos mares, sua voz. De todas as sereias do mar seu pai ansiava apenas pela voz de Ariel, que era a mais bela no dia de seu concerto. É através de sua voz que consegue com que os outros façam coisas por ela, como convencer um peixe muito medroso de acompanha-la em suas aventuras. E é através de sua voz que chama a atenção do príncipe. De todo o conjunto da sereia, a característica que o príncipe guarda é sua voz. É dela que o príncipe não consegue esquecer, apenas de sua voz, e é justamente disso que a sereia em sua ansiedade de obter seu amor a qualquer custo, abre mão.

Diante de dificuldades o ser humano busca abreviar seu caminho para obter prazer mais rapidamente. Nessas tentativas acaba-se entrando em vícios, que superficial e momentaneamente nos satisfazem. O que acontece é que quando optamos por um vício, estamos optando também por não buscar soluções concretas para nossos obstáculos. Quando se deixa de lado a necessidade de soluções paramos de crescer. Com a estagnação de uma pessoa, ela deixa de sentir prazer por quem ela é. Então, sua única fonte de prazer será o vício. Ele é breve, passageiro, mas aparentemente ainda é um prazer, que recobre as necessidades reais da pessoa que opta por ele, e uma possível saída mais duradoura, de situações que aprisionam.

No caso da pequena sereia, seu sofrimento pelo príncipe Eric e pela injustiça que seu pai cometia com ela, de proibi-la de entrar em contato com o mundo dos humanos estava intolerável. A única forma que ela conseguiu enxergar de se livrar dele era fazer um pacto com a bruxa dos mares. As enguias que a convenciam que ela devia seguir esse caminho representam as tentações que os seres humanos sofrem antes de entrar para o mundo de um vício.

A primeira impressão de Ariel era a de que seria uma loucura falar com a bruxa dos mares. Mas ela descarta sua intuição e segue seu desejo, colocando-se em risco de perder seu maior dom para o resto de sua vida, sua voz. Ariel ainda topa perder sua natureza ( sua cauda de sereia) e arrisca perder sua liberdade, pois se não conquistasse o príncipe a tempo estaria condenada a ser escrava da bruxa dos mares para o resto de sua vida. As enguias representam portanto as portas de entrada para o mundo dos vícios: um amigo que oferece drogas, um homem bonito ( que disfraça agressões a mulher) , um padrão de comportamento imposto pelo meio, etc.

A pequena sereia faz um trato com a bruxa e coloca seu destino nas mãos do príncipe. Assim, ela perde todo o controle de seu destino e se coloca como dependente de um terceiro.  O amor verdadeiro se manifesta quando estamos alinhados com nosso propósito. Quando isso acontece, a união com o outro traz prazer, alegria, mas isso parte de um sentimento que já existia antes nos dois individualmente. A felicidade individual não depende do outro. O que Ariel faz no filme é colocar sua felicidade nas mãos do príncipe. A partir daí não existe amor verdadeiro, pois a felicidade dela depende das ações de um terceiro, que se seguirem um esquema, podem fazer a sereia muito feliz. Mas se as coisas não forem conforme o que ela espera sua vida pode vir a ruir. Isso não é amor, é dependência.

Ursula ainda fala que homens não gostam de mulheres que falam muito, preferem as quietas. Sua frase reforça um comportamento de anulação, comum em mulheres que pensam que devem falar pouco para se encaixar no modelo de “sexo frágil”. Criar esse tipo de mentalidade, faz com que os relacionamentos fiquem destrutivos para ambos os lados. Toda vez que uma mulher não tem voz ela pode ter rompantes de estresse para aliviar os sentimentos que acumula, ou entrar em depressão. De qualquer maneira o relacionamento é prejudicado.

Em seu reencontro com Eric, Ariel já está sem voz. O príncipe percebe que ela não poderia ser a mulher por quem ele se apaixonou, pois ela não tem aquela voz que o atraiu inicialmente. Isso acontece com muitas mulheres. O homem se atrai por uma característica bela, e em sua ânsia de construir um personagem de acordo com o que a sociedade manda, ela anula a característica. Na verdade era o que formava sua beleza essencial. Assim, quem inicialmente se sentiu atraído se confunde, buscando resgatar, em vão, aquilo que ela tinha de melhor.

Ariel não se impressiona quando tentam comer seu fiel amigo,  o siri Sebastião. Ele corre um risco sério, e se ela seguisse sua natureza, aquilo deixaria a sereia horrorizada. Tinham acabado de tentar assassinar seu amigo, mas ela está tão deslumbrada com o novo mundo que desconsidera o fato. Muitas relações abusivas passam por isso. Mulheres ficam tão envolvidas com uma qualidade, como um homem muito bonito, um homem rico, um prazer corriqueiro, uma boa eloquência, que fecham os olhos para fatores destrutivos como traições, agressões físicas, agressões verbais. Isso destrói a essência da mulher, mas ela continua se prendendo ao fato de que pelo menos tem um homem para mostrar.

Mesmo que exista um relacionamento, quando a mulher não está em sua essência, a relação ansiará por algo mais. Na cena em que o príncipe está na canoa com Ariel, ele quase a beija( o que estabeleceria uma relação), mesmo assim ele ainda anseia pela voz que o seduziu inicialmente.

Ariel acaba derrotando a bruxa e se casando com o príncipe. Ela precisa detonar com o ser que queria destruir sua natureza para conseguir ter seu final feliz. No filme, no entanto, Ariel passa a viver em um mundo que não é seu. Para uma história de crianças é bonito de contar. Mas usando como metáfora, a continuação desse casamento teria sido muito mais feliz se nenhum dos personagens tivesse perdido uma parte de si. Não se deve abrir mão de nossas barbatanas para encantar príncipes que vimos poucas vezes na praia.

Por trás da Máscara

Sherlock Holmes

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RESUMO

“É um grande erro criar teorias antes de analisar as informações. Inevitavelmente acontecerá uma distorção dos fatos para se encaixar a teoria em vez de teorias para se enquadrar aos fatos.” Sherlock Holmes é completamente racional. Qualquer conclusão a que ele chegue é sustentada por fatos e evidências. Sherlock pensa e age em direção a soluções de seus casos. Nenhuma de suas ações é impulsiva e suas emoções são completamente reprimidas para que não interfiram em seu raciocínio lógico.

Holmes é o famoso detetive de Conan Doyle que usa pequenos detalhes observáveis para fazer deduções sobre grandes fatos de ocorrências e comportamentos que o ajudem a solucionar um mistério. Falaremos mais sobre o caso do filme estrelado por Robert Downey Junior em que o detetive enfrenta um período de mudança de seu leal companheiro Watson que irá se casar com Mary e se mudar de Baker Street, onde mora com Holmes.

O caso é o de Lorde Blackwood. Holmes corre na primeira cena e encontra um homem tentando impedi-lo de evitar que uma menina morra nas mãos de Blackwood.

“Cabeça inclindada para esquerda, surdez parcial de uma orelha, primeiro ponto de ataque. Segundo, garganta. Paraliso cordas vocais, ele para de gritar. Terceiro ele deve beber muito. Soco no fígado. . Quarto, ele arrasta a perna esquerda. Soco no joelho. Ele vai recuperar a consciência em 90 segundos. A habilidade marcial em 15 minutos. Recuperacão total improvável. “

Em segundos, o homem está abaixo. Em segundos, a estratégia foi feita de detalhes observados e Holmes evita o assassinato da menina.

Por seus crimes, Blackwood é condenado a forca. Ele alerta a todos que ‘a morte é apenas o começo’.

Ora, não há nada que estimule mais Holmes do que um desafio mental, talvez por isso ele encontre tanta gente que o provoque em sua sagacidade. É o fato de chegar em sua própria casa e encontrar Irene Adler, a única mulher que ele amou e que foi mais esperta do que ele duas vezes. Estranho toque do acaso Adler é uma criminosa e está trabalhando para alguém que Holmes espera descobrir.

O uso de disfarces, busca em lugares, observação de mudanças de comportamento do criminoso ajuda Sherlock a descobrir que o método de Blackwood se baseia em um sistema místico ritualista. Descobre onde será o próximo crime e consegue evita-lo com a ajuda de Irene que o distrai, para que Moriarty, o homem que a contratou consiga uma peça de uma maquina que faria com que ele controlasse qualquer dispositivo por ondas eletromagnéticas. Encerra-se o filme com a abertura de um novo caso.

É natural que se pergunte, como o comportamento de Sherlock faz dele tão certeiro em suas soluções de mistérios. Seus companheiros são competentes, mas por um fração do momento podem vacilar. Sherlock não. Existem três fatores que garantem o sucesso de Holmes. O ego dele está centrado em não se O fato de Sherlock ser tão realista evita que ele tenha frustrações. No inicio do filme por exemplo, o inspetor Lestrade também foi convocado a evitar os crimes de Blackwood. Sherlock pergunta onde o inspetor está e alguém diz que ele está alinhando as tropas. Sherlock já conclui que isto pode levar o dia todo e começa agir por conta própria. Sem esse senso de realidade o detetive poderia ficar esperando para agir, mas aí como ele mesmo diz, quando o detetive chegasse eles estariam limpando um corpo e indo atrás de um foragido.

Sherlock exibe o seu “eu como alguém que não se importa com o que pensam dele. Por não se preocupar com a opinião dos outros, ele não permite que seu cérebro busque o caminho de menor resistência e encontre a solução mais óbvia e ele reprime suas emoções. Seus comportamentos não são todos positivos. Mas a combinação destes o levam a ser o melhor detetive de Londres.

É uma tendência natural de nossos cérebros encontrarem o caminho de menor resistência. Tudo que não é natural, faz com que o cérebro ative um alerta para que volte a ser feito como antes. Isso se torna um grande obstáculo para superar hábitos nocivos. Como primatas, fomos feitos para guardar o máximo de energia possível. Por isso, sempre que o cérebro tem uma oportunidade de economizar energia, ele o fará. E muitas vezes essa economia faz com que receba informações equivocadas sobre a realidade.

Nosso ambiente dispara muito mais informações do que qualquer pessoa poderia absorver sozinha. Por isso, focamos no que nos interessa e descartamos todo o resto. Isso faz com que vejamos o mundo como nós somos e não como ele realmente é. É daí que tiramos a oportunidade de mascarar a realidade e colorir ela de uma forma que nos fará mais feliz, pelo menos momentaneamente. É isso que Sherlock Holmes se concentra em NÃO fazer. Holmes tem um foco claro: usar apenas evidências para chegar na verdade sobre um crime. Sempre que sua mente tenta convence-lo a relaxar ele luta contra o impulso e volta a buscar a solução real das coisas.

Pessoas podem chegar perto de ser o mais realistas possíveis, mas é impossível alcançar uma objetividade real. Não temos como saber como o mundo é pois estamos carregados de emoções, memórias, atalhos que nosso cérebro busca. Até mesmo a forma real em que vemos as coisas diferem de uma pessoa para outra. Tome como exemplo um daltônico. Ele não vê da mesma forma que uma pessoa que vê cores padrão.

Emoções podem nos levar a caminhos mais favoráveis, mas podem nos levar a correr riscos. É bom sentir emoções. O ideal seria entender como emoções afetam nossas decisões. Em “Pense como um Freak” é narrada a história de um primeiro-ministro que queria manter um sistema de saúde inalterado de alto custo em um país em recessão por causa de um filho que precisou muito do atendimento de seus médicos e sempre foi atendido. A influencia emocional do sistema cegava o primeiro ministro para seus resultados práticos. Isso provavelmente jamais aconteceria com Sherlock.

Quando há rumores sobre Blackwood ter sido visto andando no cemitério, Watson descarta imediatamente a possibilidade. Mas Sherlock o alerta que ele não deve descartar os fatos. Seu poder de desvendar pessoas faz com que seu poder de manipulação sobre o companheiro seja grande. Após ter provas de que Blackwood realmente não está morto, a mente de Watson novamente tenta relaxar sugerindo que neste caso pode ter sido uma força sobrenatural. Assim o caso estaria resolvido, ele não teria mais que se preocupar com isso, ia poder finalmente pensar na decoração de sua casa nova com Mary e em quantos filhos eles conseguiriam dar conta de criar. Novamente Sherlock alerta sobre o erro de se teorizar antes de se ter dados.

O fato de Sherlock ser tão realista evita que ele tenha frustrações. No inicio do filme por exemplo, o inspetor Lestrade também foi convocado a evitar os crimes de Blackwood. Sherlock pergunta onde o inspetor está e alguém diz que ele está alinhando as tropas. Sherlock já conclui que isto pode levar o dia todo e começa agir por conta própria. Sem esse senso de realidade o detetive poderia ficar esperando para agir, mas aí como ele mesmo diz, quando o detetive chegasse eles estariam limpando um corpo e indo atrás de um foragido.

Diariamente, avaliar as probabilidades de pessoas específicas cumprirem com seus compromissos, um serviço contratado falhar no prazo de entrega, um companheiro de trabalho faltar seria de auxílio também para evitar frustrações em situações simples e que podem ser planejadas de antemão. Sherlock corre um risco em evitar frustrações ao não criar relações com as pessoas. Ele não tem vínculos, portanto não pode contar com parceiros em sua jornada. Seu único parceiro está o deixando para morar com uma mulher.

A definição de ego de Osho é muito esclarecedora. Ele conta uma história de um rei que construiu um palácio com uma sala com milhões de espelhos. Se alguém acendia uma vela ali, apareciam milhões de velas. Se alguém quisesse brincar ali, apareciam milhões desse alguém. Um dia um cachorro entrou lá e ficou muito assustado com milhões de cães. Ele ia morrer com certeza. Ele latia, milhões de cães latiam. Ele ficou agressivo e milhões de cães ficaram agressivos. Ele se atirou contra as paredes e de manhã foi encontrado morto.E não havia ninguém, exceto o próprio cão. A definição que Osho dá do ego é que ele nasce de reflexos. Você vê seus reflexos no que outros dizem sobre você, na maneira que te olham, que se expressam e vai acumulando. Você forma desses reflexos uma identidade. Até mesmo quando conhecemos outras pessoas, elas são na verdade um reflexo nosso, das características que resolvemos lhes dar.

O ego existe em todas as pessoas. Não poderia ser diferente, todos precisamos ter uma identidade. Existem pessoas, que deixam seus egos afetarem seu comportamento mais do que outras. Se passamos a nos preocupar em demasia com o nosso reflexo, deixamos de fazer o que nos da prazer e passamos a fazer o que nos da uma imagem melhor. Normalmente tiramos essa referencia de exigências de nossa cultura. Muitas vezes a preocupação excessiva com o ego pode paralisar pessoas. Evitar ações com o medo do fracasso e do que isso iria causar para a sua imagem.

Holmes aparentemente constrói seu ego na ausência da necessidade do reconhecimento. A imagem que ele quer passar é a de que não precisa da aprovação de ninguém e não se importa com reflexos. Ao resolver seus casos não é ele que leva o crédito na imprensa. Após salvar a menina que Blackwood ia matar, a imprensa divulga como se o inspetor Lestrade tivesse solucionado o caso e não Holmes. Sherlock foge de fotos e enfrenta as pessoas com fatos que deduz sobre elas de forma agressiva, o que demonstra uma despreocupação com o que venham a pensar dele e uma falta de empatia.

Essa característica de Holmes facilita seu pensamento claro. Se preocupar muito com os reflexos que produz nos outros faz com que as pessoas misturem emoções que muitas vezes não correspondem ao real alcance do que terceiros estão refletindo a elas. Essas emoções interferem no que está acontecendo na realidade, ou seja, nos fatos. Distorções de visões de outras pessoas podem acontecer em dois sentidos. O primeiro transforma o que alguém disse ou fez em uma imagem mais negativa do que a real intenção da pessoa. Isso nos afeta com emoções pessimistas podendo trazer reações de auto-sabotagem, que não deixam de ser uma forma do cérebro gastar menos energia pois ele já acaba com qualquer possibilidade antes mesmo de lhe dar uma chance. E o segundo é uma forma de mascarar uma realidade mais cruel, para não ter que se preocupar com isso agora ou evitar sofrimento, o que acaba prolongando uma situação ruim ou fazendo com que se entre em uma zona de conforto em algo destrutivo. Holmes não se desvirtua em nenhum desses sentidos. Ele trabalha no centro, onde as coisas são como elas são.

Um homem com poucas pessoas em seu convívio, Holmes só se envolve com quem realmente lhe interessa e possa lhe ajudar, dispensando formalidades sociais. Mesmo para conhecer a noiva de seu parceiro, ele é resistente. Não ter essa necessidade de outros ao seu redor vem da supressão de sua emoção. Isso torna Holmes um homem solitário. Apesar de toda sua perspicácia e sagacidade ele tem dificuldade em compartilhar tanto informações, quanto sentimentos. Assim, ele deixa de revelar seus planos em muitas ocasiões a Watson, que se diz incomodado com isso.

Emoções podem sim se transformar em realidade. Quando acreditamos em uma determinada coisa e nos sentimos bem em relação a ela, nos comportamos de formas que levam a concretização daquilo. Quando não acreditamos ou temos emoções negativas a tendência é não fazer nada para alcançar o objetivo. Por esse motivo reprimir emoções não seria o recomendável, já que elas são um indicador de se você está no caminho certo. E, aqui está a contradição de Sherlock Holmes, porque reprimir as emoções pode fazer você lidar melhor com fatos do mundo objetivo, mas faz com que você se cegue a possíveis percepções de seu eu. No caso de Sherlock ele se cega a sua falta de higiene, ao fato de não ter muitos vínculos íntimos com pessoas, ao fato de não ter uma família. Sherlock não quer ver o que pode lhe causar dor e essa realidade ele evita a qualquer custo. E isso são fatos, não uma teoria.

Tendo em vista que o objetivo de Holmes é ser o melhor detetive e usar sua perspicácia da melhor forma possível, o detetive o faz da melhor maneira. A supressão da emoção de Sherlock poderia vir a atrapalha-lo caso este tivesse objetivos como casar e fazer sua família, ser querido, compreender ao próximo, entre outros. Sherlock tem que sacrificar sua atração por Irene para se manter em seu eixo de objetividade. Ela o chama para ir com ela, chora, e mesmo com seu novo cenário de perder Watson para Mary ele evita Irene. O que se conclui é que antes de resolvermos nos tornar super racionais porque seria muito legal desvendar qualquer mistério assim como Sherlock o faz, temos que nos perguntar qual é nosso objetivo e se virar um Sherlock Holmes ajudaria a supri-lo ou se seria melhor passarmos bem longe de Baker Street.